In memoriam: Carlos Rocha
2026-05-12
Licenciado em Engenharia Electrotécnica (1975) pelo Instituto Superior Técnico (IST), Universidade Técnica de Lisboa; MSc in Applied Mathematics (1983) and PhD in Applied Mathematics (1985) by Brown University; Agregação em Matemática no IST (1994).
Foi docente de matemática no IST desde 1972: Monitor no Gabinete de Análise Numérica dirigido pelo Professor Eduardo Arantes e Oliveira antes da constituição dos departamentos no IST (1972-77), altura em que foi co-autor do texto Valores e Vectores Próprios de Matrizes Reais, que incluiu programas de cálculo numérico com vários métodos, publicado pelo IST e pelo Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC); Assistente Eventual das disciplinas Matemática Aplicada à Electrotecnia I e II (1977-79); Assistente em disciplinas de matemática (1979-86) integrando o Departamento de Matemática quando os departamentos do IST foram constituídos em 1980; Professor Auxiliar (1986-89); Professor Associado (1989-95); Professor Catedrático (1995 -2020), altura em que se reformou embora tenha mantido a ligação ao IST com um Contracto de Associação.
Foi Assistente de Investigação no Laboratório de Fisiologia do IGC (1975-79); Research Assistant (1981-85, 1984-85) and Teaching Assistant at the Division of Applied Mathematics, Brown University, USA (1983-84); Visiting Fellow of the Institute of Mathematics and Its Applications, University of Minnesota; USA (1989); membro do Centro de Matemática e Aplicações Fundamentais do Instituto nacional de Investigação Científica (INIC) (1985-88) e do Centro de Análise e Processamento de Sinais do INIC (1985-94) em linhas essencialmente com docentes do IST criadas e coordenadas por Luís Magalhães
Também foi membro do Centro de Análise Matemática Sistemas Dinâmicos e Aplicações do IST (1991-97) que mudou de nome para Centro de Análise Matemática, Sistemas Dinâmicos e Geometria em 1997 por proposta de Luis Magalhães que o coordenou assim como as linhas de investigação que lhe deram origem desde 1984, tendo Carlos Rocha assumido pouco depois a coordenação deste Centro, por mais de 22 anos, até 2020 pouco antes de se aposentar. Neste longo período manteve neste Centro um ambiente acolhedor, internacionalizado e dinâmico que contribuiu para a consolidação da carreira dos seus membros e dos muitos pós-doutorandos ou outros investigadores que acolheu e apoiou, e para esta ser a única Unidade de I&D em Matemática do país classificada com Excelente em todas as avaliações promovidas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Foi Presidente do Departamento de Matemática do IST de 1997 a 2001, e membro do Conselho Científico do IST e do Senado da Universidade de Lisboa, ambos de 2017 a 2020.
Durante mais de duas décadas foi chamado a participar em muitos júris de concursos para professores de matemática nas várias universidades portuguesas, o que acabou por ser uma ocupação que exigiu um esforço intenso a que nunca se furtou e revelou a grande confiança de apreciação académica rigorosa e justa que tinha entre colegas das outras universidades do país.
Nas funções dirigentes referidas revelou qualidades excepcionais de ponderação, estratégia e concretização, pautando-se sempre por fortes princípios éticos e por abertura a diferentes formas de pensar e agir.
A sua actividade de investigação centrou-se em análise matemática, equações diferenciais e sistemas dinâmicos de dimensão infinita, com ênfase em equações diferenciais parciais parabólicas de reacção-difusão, tendo contribuído decisivamente, principalmente em colaboração com Bernold Fiedler, para caracterizações topológicas e combinatórias do atractor marcadamente inovadoras, aspectos de transversalidade de variedades invariantes e estabilidade estrutural deste tipo de sistemas dissipativos e de sistemas definidos por equações diferenciais com atraso infinito, destacando-se também as colaborações frutuosas com Waldyr Oliva e Giorgio Fusco.
O Carlos Rocha marcou a vida do Departamento de Matemática do IST e de todos os colegas e alunos que tiveram o privilégio do seu convívio nos 46 anos em que pudemos contar com a suas capacidades, profissionalismo, empenho e entusiasmo, sem esquecer a sua permanente boa disposição, realismo, e uma capacidade de síntese que foi muito útil para várias decisões académicas cruciais no período inicial de desenvolvimento da componente de investigação no Departamento de Matemática do IST, mesmo quando eram concretizadas por outros dos seus colegas mais próximos. Estas suas qualidades já eram evidentes quando, ainda aluno do IST, fez parte da equipa de jovens investigadores (Luis Magalhães, Manuel Ricou, Carlos Rocha, Francisco Teixeira e Amarino Lebre que prosseguiram carreira no Departamento de Matemática do IST, António Pascoal e Carlos Alegria que integraram o Departamento de Eng. Electrotécnica e de Computadores do IST, e ainda o médico Pedro Costa, a bióloga Maria Ana Santos e o engenheiro licenciado no IST Pedro Fernandes) no Laboratório de Fisiologia do IGC acima referido, onde uma iniciativa pioneira dos dirigentes visionários Hugo Gil Ferreira e Kelo Correia da Silva integrava alunos universitários, engenheiros, biólogos e médicos em projectos de investigação na então nascente área da Biomecânica e dos associados processos de controlo e processamento neuronal. Nesta equipa exerceu várias tarefas, entre as quais a utilização precoce de splines na descrição numérica da caixa toráxica de cães e gatos para apoio à modelação do associado controlo neuromuscular em relação com dados electromiográficos dessa função digitalizados em tempo real a partir de experiências realizadas no Laboratório com animais.
O Carlos foi sobretudo um amigo e colega ímpar pelas suas qualidades profissionais e humanas, de solidariedade e disponibilidade para apoiar outros, com grande inteligência e inquebrável integridade, simplicidade e modéstia, e apurado espírito crítico e grande sentido de humor, enfrentando e resolvendo situações complexas com serenidade e pragmatismo. Enfrentou a doença que agora o venceu com coragem e tenacidade exemplares e, mesmo depois de reformado por indicação médica, manteve intensa produção científica com o seu habitual entusiasmo, empenho e virtuosismo técnico. Será para sempre lembrado com muita saudade, mas deixa também uma enorme satisfação em quem teve a sorte de cruzar caminhos na vida com alguém como ele.






